Um blogue em que os meus convidados são desafiados para uma entrevista em jeito de conversa de café
30 de Novembro de 2009

 

Viveu em Atenas e Amesterdão, mas é Lisboa que a seduz. Assume-se como viajante na sua cidade. Escreve para que outros possam conhecer a sua Lisboa.

 

 

Lisboa é uma mulher que queremos ter por amante. Não é uma mulher perfeita, mas é uma mulher que nos leva à loucura nas esquinas mais esquecidas.
 
 
Rita Filipe – Quem é a Sancha Trindade?
 
Sancha Trindade - É uma viajante da cidade, que tem uma missão: a de partilhar Lisboa e é uma pessoa com muito orgulho no seu país. Com perfeita noção da riqueza cultural dos nossos poetas e da nossa literatura e que se predispõe todos os dias a fundir-se com a cidade para enaltecer essa partilha. Acima de tudo para elevar a auto-estima dos portugueses. Acho que esta é a grande missão.
 
RF – Como é ter a cidade na ponta dos dedos?
ST - É um privilégio muito grande e um sentimento que me ultrapassa todos os dias. Que me surpreende e que me faz todos os dias chegar à noite e para além das cinco coisas que eu aprendi a agradecer, agradeço a minha vida, a qual sinto como um enorme privilégio.
 
RF – Como descreveria Lisboa a um estrangeiro que não conhece a cidade?
ST Lisboa é uma mulher que queremos ter por amante. Não é uma mulher perfeita, mas é uma mulher que nos leva à loucura nas esquinas mais escondidas e fascinantes. Consegue ser uma cidade elegantemente sexy, mas muito misteriosa. Acho que é uma cidade que queremos ter como amante para o resto da vida, uma cidade que reúne as qualidades mais fascinantes de uma mulher e uma da mais importantes: o facto de ser muito feminina.
 
RF – Porque é que escolheu o Café Royale como palco da nossa conversa?
ST – Este foi um dos sítios a que mais me agarrei quando voltei da Holanda e da Grécia. Voltei com medo. Quando se está 4 anos fora de Portugal... O Royale foi o primeiro café que me surpreendeu no novo Chiado. Nós temos uma pastelaria fascinante, que põe a pastelaria francesa a um canto. Mas os nossos cafés não são bonitos e isto é Portugal, um diamante em bruto. Temos uma pastelaria fascinante e depois temos esplanadas com cadeiras berrantes a publicitar refrigerantes. Felizmente isso está a acabar. E este foi um dos cafés que me mostrou que Lisboa estava mesmo a mudar. Na altura uma série de guias e revistas elegeram Lisboa como um dos melhores destinos da Europa e nessa visão do mundo esta morada é transversal. Aqui encontram-se pessoas clássicas, originais, eruditas, alternativas, sonhadoras e tudo o resto. Gosto desta transversalidade.
 
RF – O que é que Lisboa ainda não tem?
ST – O drink after business. Lisboa ainda não tem a continuidade do dia. Lisboa ainda não tem o encontro entre os viajantes.
 
RF – Qual é a cidade da sua vida?
ST – É Lisboa. Se não fosse Lisboa, escolhia Atenas. É a cidade mais feia do mundo, mas foi onde aprendi a ser feliz. Atenas tem esquinas maravilhosas e os gregos vivem a vida e a partilha como ninguém e lembram-me o Porto: quando fazem, fazem muito bem. Farto-me de dizer isto, o Porto dá dez a zero a Lisboa em muita coisa e o que fazem é com muita pujança e paixão. Mas respondendo à pergunta é claro que a cidade da minha vida é Lisboa.
 
RF – O que é que Lisboa tem de tão especial?
ST – É uma cidade que me continua. Que tem o Tejo, que tem muita história. Eu cresci aqui, neste bairro. Lembro-me de descer o Chiado de mão dada com os meus pais e ir à Ferrari ao Sábado de manhã beber um batido de morango e comer as bolachas de framboesa que imortalizaram a montra que infelizmente desapareceu com o incêndio. Ainda hoje guardo com carinho as recordações do Chiado antigo.
 
RF – Como é que se define profissionalmente?
ST – Costumam arrumar-me na gaveta dos jornalistas, mas alguns dizem que sou cronista, outros colunista. Acho que sou simplesmente uma viajante que partilha a sua cidade. 
 
 
 
 

 

publicado por Rita Filipe às 23:05
23 de Novembro de 2009

Tem Lisboa na ponta dos dedos. Assume-se como viajante da cidade. Escreve para a revista Única do Expresso, GQ,  Lisbon Golden Guide, entre outros.  Os dias são dedicados à cidade que a apaixona. Estive à conversa com Sancha Trindade, uma mulher que tem o privilégio de divulgar Lisboa.

 

 

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foto roubada ao alfaiate lisboeta

publicado por Rita Filipe às 12:16
21 de Novembro de 2009

 Está habituada a gerir a sua vida ao minuto. É mãe, mulher, profissional de sucesso. A editora da Revista Exame acaba de lançar um livro com um título sugestivo. "O homem certo para gerir uma empresa é uma mulher" é o seu mais recente projecto.

 

 

 Acho que as mães conseguem ser melhores gestoras do tempo. 

 

Este livro não é só para presidentes e directoras gerais. Este livro é para todas as mulheres que têm o sonho de ter o seu projecto. Seja ele pessoal, profissional, por conta de outrem ou por conta própria.

 

Rita Filipe – Quem é a Rosália Amorim?

 

Rosália Amorim – É uma mulher que sabe o que quer (risos). Que tenta manter a sua simplicidade e genuinidade, mesmo nos trabalhos mais complexos como escrever um livro. É uma mulher que tenta dar alma àquilo que faz e àquilo que escreve.

 

RF – Como é que faz a gestão de uma carreira e de uma vida familiar, uma vez que é casada e tem dois filhos?

 

RA – Estes dois lados da nossa vida andam sempre par a par, tal como os carris dos comboios, sempre em paralelo, portanto são indissociáveis. Por vezes cruzam-se a aí é preciso haver alguma gestão moderada das prioridades e do tempo que se dá a cada um dos lados. As entrevistas que fiz para este livro comprovam isso mesmo. É possível uma mulher ter um cargo mais ou menos executivo, depende da hierarquia da empresa, e ter uma vida normal, com casamento e filhos. A maioria das entrevistadas é casada e teve filhos e têm uma vida familiar feliz. Acho que qualquer uma de nós que não seja feliz e não esteja realizada, não desempenha bem o seu trabalho. Depois há outra coisa interessante. Acho que as mães conseguem ser melhores gestoras do tempo. Porque têm de gerir ao minuto, ao segundo, até na minha equipa vou vendo que à medida que as pessoas vão sendo mães também se tornam melhores gestoras do tempo. Mais atentas, mais sensíveis, mais atentas ao pormenor.

 

RF – Porque é que “O homem certo para gerir uma empresa é uma mulher”?

 

RA – O título é uma forma de chamar a atenção para o assunto e para a falta de igualdade que existe entre os dois sexos no nosso país. Quando em Portugal temos dados como por exemplo, os administradores do PSI-20, em que apenas 4,8% são mulheres, em 418 administradores, acho que só esse número merece um livro. É incrível como são tão poucas as mulheres no topo das organizações. (...) Acho que a mulher pode ser o homem certo na medida em que tem determinadas características que alguns homens também têm mas que as mulheres poderão aproveitar melhor. Como por exemplo actuar em multitasking e efectuar várias tarefas ao mesmo tempo, e poder explorar melhor aquilo que o povo chama o sexto sentido, mas que ao fim ao cabo é a inteligência emocional. Essa inteligência emocional permite ter sensibilidade, ler os sinais da empresa, ler os sinais da sua equipa, ter uma visão periférica e de helicóptero, também para apreender tudo e tentar resolver as situações mais caricatas e difíceis com bom senso. (...) Porque é preciso provar em dobro. As mulheres estão muito mais expostas.

 

RF- Sentiu isso ao longo da sua carreira? Por ser mulher teve de provar em dobro?

RA – Quando entrei no jornalismo os homens mandavam sem dúvida, tanto na rádio comercial onde comecei, como na Exame. A maior parte dos editores também eram homens. As mulheres eram apenas duas, sempre vistas como as meninas bonitas que estavam ali. Um bocadinho as flores que adornam a redacção. Quando passei à segunda era da Exame com uma directora mulher, e que eu própria passei a editora, achei que havia aqui alguma evolução de mentalidades, provando o contrário daquilo que se pensa. O jornalismo económico também é feito por mulheres. E se entrarmos na redacção do Expresso também há muitas mulheres. Há 10 anos atrás as mulheres eram vistas como adorno e têm vindo a afirmar-se cada vez mais pela sua competência. Não por cotas!

 

RF – Defende que as mulheres devem chegar ao topo por mérito e nunca por cotas.

RA – Chegar ao topo por meritocracia acho que é indiscutível e isso está muito patente no meu livro. Não me imaginaria enquanto mulher, gestora, ou política quiçá, a ocupar um cargo por exemplo no parlamento por uma questão de percentagem. Isso para mim seria um atestado de menoridade, de falta de inteligência. Não consigo aceitar essa teoria das cotas. Sei que podemos levar mais tempo a lá chegar, sei que podemos ser mais questionadas. Os homens provavelmente não vão gostar de ver as mulheres a ocuparem os lugares e portanto vão fazer uma batalha duríssima. Mas aí os nossos argumentos têm de ser competência, demonstração de resultados, inteligência emocional, e trabalho, trabalho, trabalho. Trabalhar como os homens e não se resguardar no facto de ser mulher, ser sensível, ser mãe, não tenho tempo… não tenho de tentar fazer melhor nas duas valências, em casa e no trabalho, com a arma da competência, que é a nossa única arma infalível.

 

RF – Falando de estilos de liderança, no seu livro diz que mulher é Golfinho, homem é tubarão. Esmiuçando este conceito o que temos?

 

RA-  Esmiuçando  o conceito, julgo que o homem ainda actua muito como um tubarão. No sentido de ser um predador. Ele actua de forma muito mais agressiva. A mulher é muito mais comunicativa e está mais atenta à sua equipa. Tendo em conta as teorias da evolução da gestão, que dizem que a mulher tem estas competências e que cada vez mais é preciso trabalhar em equipa para ter bons resultados, julgo que o golfinho pode evidenciar-se por aí. No entanto quando analisamos estas mulheres executivas que estão no topo reparamos que algumas delas, aqui e ali ao longo da sua carreira, tiveram um quê de tubarão. Porque é quase impossível estar neste meio sem ser atingida pelo mimetismo. Quando se está no meio executivo é preciso às vezes ser dura como eles são. Ser predadora como eles são. Impor a sua presença, a sua liderança, de forma mais ou menos natural, mas com uma presença muito forte. E portanto esse mimetismo às vezes dá-lhes um quê de tubarão. Acho que estas mulheres que estão no topo hoje em dia são menos afectadas por esse mimetismo. São menos mulher-homem. Há menos aquele preconceito de que quem está no topo tem de vestir fato sempre cinzento ou preto, cabelo muito curto à homem, e não usa brincos nem pulseiras. Há menos esse efeito e a mulher assume-se mais feminina.

 

RF – Dê-me uma boa razão para o comum leitor comprar este livro.

 

RA-  Estive recentemente no programa da Fátima Lopes, na SIC, e ela dizia, e muito bem, que este livro não é só para executivas. Este livro não é só para presidentes e directoras gerais. Este livro é para todas as mulheres que têm o sonho de ter o seu projecto. Seja ele pessoal, profissional, por conta doutrem ou por conta própria. Sobretudo é um livro que tenta ter um discurso optimista e tenta mostrar que somos capazes. Mesmo quando os obstáculos são terríveis, mesmo quando é preciso quebrar os tais tectos de vidro que não nos deixam subir na organização, sejam os homens, seja o preconceito da família que não ajuda. Para as mulheres o livro pode ser uma arma, quase que um empurrão para continuarem a lutar por aquilo que pretendem. Para os homens, como dizia o Nicolau Santos, no texto de apresentação do meu livro, este pode ser um manual para nos aprenderem a conhecer melhor.

 

RF- A Rosália já escreveu um livro, já teve não um mas dois filhos. Qual é a árvore que lhe falta plantar?

 

RA- Já plantei várias. Vários pinheiros. Já tinha feito outro livro a meias com a Rosa Lobato Faria, que foi um projecto completamente diferente. Este é o meu primeiro livro a solo, e nesse sentido quero plantar outros livros a solo. Ainda não sei bem o tema, sempre à volta da economia certamente, não tem é título ainda.

RF – Se não fosse jornalista o que gostava de ser?

 

RA-  Escritora. Tive a paixão do jornalismo muito cedo, porque aos 16 anos fui convidada para fazer rubricas de cinema na rádio local. Sou do Cartaxo e comecei na rádio de lá. Convidaram-me para ao Sábado fazer rubricas sobre cinema, analisar e recomendar filmes. E gostaram imenso da minha voz. Eu fiquei fascinada com a ideia. Nunca tinha pensado em rádio. Quando comecei com as rubricas de cinema fiquei fã da comunicação, do ambiente da rádio, e do jornalismo. Ainda estava a acabar o secundário convidaram-me para a redacção. Fui fazendo um semanário e de repente comecei a chefiar a redacção. Tinha 17 anos e já estava nessas funções. E daí para a comercial em Lisboa foi só o momento de passar para a faculdade, e fui integrada na comercial que é uma escola fantástica. Portanto o jornalismo sempre esteve muito presente. E depois a minha mãe recorda sempre que quando saíamos para qualquer fim-de-semana, tinha eu 10 ou 12 anos, eu ia sempre com um bloco e com uma caneta. Acho que nunca contei isto em nenhuma entrevista. (risos) E tomava nota de tudo. Acho que a minha veia de repórter vem daí.

 

RF – A internet, a blogosfera, as redes sociais mudaram a forma como se comunica hoje em dia?

 

RA- Completamente, só o facto de eu estar aqui consigo, é um tipo de jornalismo diferente, personalizado, desta nova era do 2.0  o que mostra o quão diferente está o mundo em termos de comunicação. Acho que é impossível não estar. Se se quer comunicar, se queremos estar ligados ao mundo é impossível não estar na 2.0. Eu própria tenho dois blogues que vou alimentando consoante o tempo me permite. Um no site Exame/Expresso outro que é pessoal. As pessoas comentam muito o facto das coisas serem divulgadas online o que não acontecia até há uns anos atrás. E em termos de negócio da comunicação, que é onde estou, acho que é absolutamente complementar estar no papel e na internet. Só estando nesses dois meios, conseguimos atingir gerações diferentes com expectativas diferentes.

 

  brevemente uma foto minha com a Rosália Amorim

 

publicado por Rita Filipe às 16:35
14 de Novembro de 2009

 A minha próxima convidada é a autora do livro " O homem certo para gerir uma empresa é uma mulher". É casada, mãe de dois filhos, feliz e editora da revista Exame. Estive à conversa com uma mulher decidida que sabe o que quer. Chama-se Rosália Amorim. 

 

publicado por Rita Filipe às 16:42
09 de Novembro de 2009

Mário Pacheco compôs Fados tão conhecidos como “Há uma música do povo” ou “ Cavaleiro Monge”. Acompanhou vozes como a de Amália Rodrigues com a sua guitarra portuguesa. Em 2006 a Fundação Amália Rodrigues atribuiu-lhe o prémio de Melhor Compositor. Gravou dois álbuns de instrumentais. “Clube de fado: a música e a guitarra” foi eleito em 2007 pela revista britânica Songlines como um dos dez melhores do mundo na área World music. Hoje vive para o fado. O ritual repete-se todas as noites. Quando a intensidade luminosa baixa, o ruído abandona a sala, os empregados deixam de servir e ele entra com os fadistas. Silêncio que se vai cantar o fado.

 
 
Rita Filipe - Quem é o Mário Pacheco?
 
Mário Pacheco -  É um músico da especialidade fado embora abarque outras músicas. No fado, normalmente a tradição é de família. Hoje em dia já é um pouco diferente, mas a tradição era que os guitarristas fossem os filhos dos guitarristas. Não havia escolas, por consequência sou filho de um guitarrista que foi bem famoso, popularizado pela Hermínia Silva. No meio de uma brincadeira inocente ela disse uma frase que ainda hoje, passados trinta e tal anos se ouve. “Anda Pacheco”, é o meu pai, o António Pacheco. Desde pequeno, 6, 7 anos que ia para os fados com o meu pai. Ele ia trabalhar e eu ia para a farra. O meu padrinho tocava viola e fazia parelha com o meu pai que tocava guitarra portuguesa. E eu ia para os fados com a família. Mas para mim era uma brincadeira. Nunca me entusiasmei nem tinha vontade de tocar. Até que aos 14, 15 anos comecei a tocar viola nas festas da escola. Toquei viola durante 18 anos. Até que comecei a compor e a tocar guitarra portuguesa. Decidi ser solista, porque a viola no fado é um instrumento de acompanhamento. Dediquei-me arduamente à guitarra portuguesa, que é um instrumento de solo. O fado não é uma música de moda, já tem duzentos anos, e já sobreviveu a muitas coisas, achei também como propósito de vida que se esse património todo me chegou a mim, fados, instrumentais, guitarradas, deveria dar o meu contributo. Já gravei dois discos de instrumentais.
 
 
RF – Tocar guitarra portuguesa é uma profissão ou uma espécie de fado?
 
MP – As duas coisas. É obviamente uma profissão, existem os profissionais da guitarra portuguesa. Mas para quem quer mais alguma coisa, e tem sempre uma insatisfação, e as angústias da criação, angústias que passam a ser existenciais, porque queremos sempre mais qualquer coisa, depois a consciência aumenta, e se aumenta a consciência, aumenta a visão de que somos fraquinhos. Abençoados os loucos que pensam que sabem tudo! Quanto mais sabemos mais se vão abrindo caminhos. Tentamos abarcar muitas emoções, muitas vivências. Estou aqui ao lado do monumento mais antigo de Lisboa, estamos a falar do Século XI.O que é uma carga muito grande. Por consequência, tocar guitarra também é um fado, na verdadeira génese da palavra. Posso dizer que o meu fado é o fado.
 
RF – O que é para si o fado?
 
MP – Citando Amália “O Fado é um mistério”. Ninguém sabe muito bem como isto começou. Os académicos surgiram atraídos por esta magia do fado, porque o fado tem de facto algo especial, tal como os poetas que há 20 anos ficavam horrorizados se escrevessem para fado e hoje o fazem. O nosso prémio Nobel escreve para o fado também. Tentando ser mais objectivo, o fado é uma música que tanto quanto se sabe  nasceu em Alfama, nas docas, no rio. No início do século XVIII Portugal estava esvaído de capital e de capital humano. Tudo o que era gente jovem, homens jovens morreram no mar, ficaram em África, na Índia, no Brasil. Portugal era um país de mulheres, de viúvas, de prostitutas que viviam à espera que um barco viesse. Era um país de miséria, havia muita fome. Há algum tempo que digo que o fado são os blues da Europa. É uma cantiga de mágoa. Tanto quanto me informei o fado existe porque existiram os fadistas. E quem eram? Eram vagabundos que lamuriavam nas tabernas à procura de um emprego especialmente quando regressavam do mar. Estes vagabundos cantavam umas melopeias, sempre muito repetitivas, tal como existe um bocadinho no flamenco e baseava-se nisto : ai a minha vida é uma tristeza, ai a minha vida é uma miséria… E o fado está associado à tristeza.
 
RF – E a saudade?
 
MP-  A saudade é outra conversa, é como o “anda Pacheco”. Entrou no ouvido, mas não acho que seja assim tão importante para o fado. Qualquer jornalista que fala comigo vem com a história da saudade. Faz algum sentido, mas não acho que tenha tanta importância. É uma palavra difícil de explicar, é algo muito nosso, sentimos o que é a saudade mas torna-se complicado explicá-la a um estrangeiro. É uma palavra e um sentimento muito português. Porquê? Foi a nossa história que criou isso, os nossos marinheiros quando partiam, levavam e deixavam saudades. E a palavra entrou no léxico do fado. Com alguma pertinência, mas não tanta quanto lhe atribuem.
 
RF – Acompanhou com a guitarra portuguesa as grandes vozes do fado. Como é o exemplo de Amália. Tem alguma história dela que queira contar?
 
MP-  Posso dizer-lhe que a tratava por Ana Maria. Porque era o nome do personagem que ela fazia no filme “Fado: a história de uma Cantadeira”. Ela gostava muito de contar anedotas. Era extremamente negativa e extremamente alegre. Era negativa, a morte perseguia-a. E isso vê-se nas letras. Foi uma excelente letrista, excelente mesmo. Não era uma pessoa esperta, era de facto uma pessoa muito inteligente. E uma pessoa inteligente é frágil, sente as coisas de outra forma. Era muito perspicaz, muito atenta, embora parecesse que não. Este presente que Portugal teve em ter uma Amália, uma pessoa que tinha um dom, uma voz única, extraordinária. Veio do povo, gostava do povo, dos pobres… houve uma altura da minha vida em que vivi dois meses com a Amália no Brejão quando estávamos a preparar o último disco dela. Ela deu-me tudo e eu dei-lhe a esperança. Deu-me conhecimento, amizade, deu-me o privilégio de estar com ela e eu só lhe dei uma coisa que achava importante, dei-lhe a esperança. Quando toda a gente dizia que ela não cantava mais, eu disse-lhe o contrário. Não cantaria como há 40 anos atrás, mas com a voz belíssima dos seus setenta e tal anos. Nunca lhe pedi nada, não falávamos muito. Sabe que há pessoas que só de termos o privilégio de estarmos ao pé delas aprendemos muito. Nunca a adulei só por adular. Dizia-lhe as coisas seriamente. Já passaram 10 anos desde a sua morte e apercebo-me que as pessoas ainda não perceberam a grandiosidade da Amália. A grande maioria não sabe verdadeiramente o que representa Amália.
 
RF – Quem é Amália Rodrigues ?
MP – A frase não é minha é dela. Com uma imodéstia que não era normal nela dizia “não existe fado, existe Amália”. Ninguém conhece o fado, conhecem sim a Amália. O mundo conhece Amália.
 
RF – Qual é o significado do Clube de Fado para si?
 
MP – A páginas tantas da minha vida decidi que queria ter um sítio para tocar. Não gostava das outras casa de fado. Isto era um bar, soube que o dono queria vender e comprei. É meu há 15 anos. E do nada, em conjunto com os meus colaboradores, criei uma das casas de fado mais famosas em Lisboa. Faço uma selecção muito rigorosa dos fadistas que aqui tenho. Esta é uma casa baseada no respeito e na dignidade. É uma grande paixão.
 
RF – Há magia no dedilhar da guitarra portuguesa?
 
MP -  A guitarra portuguesa é um instrumento de solo, permite uma certa libertação, tem uma sonoridade própria. É um instrumento que encanta as pessoas, talvez por não ser muito conhecido. A guitarra soa a Portugal, identifica Portugal. Quem vem uma vez a Lisboa e ouve fado associa a guitarra a Portugal. Como dizia o Carlos Paredes “é o som do rio, é o ruído da cidade, Lisboa tem um silêncio diferente dos outros silêncios”. Para mim a guitarra traz-me mar, casario, ruinhas. Para mim o som da guitarra é som de Portugal. Foi muito bem sacada aos Ingleses. A guitarra era inglesa. Quando vieram para cá ajudar, ou não, contra as invasões napoleónicas, trouxeram a guitarra. Tanto quanto se sabe foi assim que este instrumento apareceu em Portugal. Costumo dizer com uma certa ironia que foi roubadinha e bem porque já que eles nos levaram o vinho do Porto e as lãs, roubámos-lhes a guitarra. Nós transformámos e melhorámos muito a guitarra, era um instrumento sem sonoridade e agora é um instrumento glorioso.

 

 

publicado por Rita Filipe às 21:44
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