Um blogue em que os meus convidados são desafiados para uma entrevista em jeito de conversa de café
03 de Outubro de 2009


"Não é por acaso que o negócio de produtos que mais tem crescido em vendas no último ano são velas, preservativos, brinquedos eróticos e chás. "

O meu entrevistado chegou com um look casual. Quase casual... Nos pés trazia uns ténis cor-de-laranja a contrastar com o blazer preto. Tentou de tudo para sabotar a minha entrevista. Brincou com o gravador, respondeu a emails através do iPhone, olhou para os pombos. Aquilo que agora publico é o resultado de uma tentativa séria de fazer uma entrevista ao nosso cool hunter de serviço.
O arranque foi conturbado. O Luís não parava de testar o gravador. Consequentemente eu não parava de rir.


Rita Filipe - Quem é o Luís Rasquilha?

Luís Rasquilha – O Luís Rasquilha é um bocadinho disto, de espontaneidade, de diversão. E que tenta por sempre uma componente de diversão em tudo o que faz. Tenho 34 anos, e como dizem as minhas sobrinhas “já tem idade para ter juízo”, e divido-me entre as aulas que dou, a empresa onde estou mais focado na componente das tendências como core de negócio. (...) O Luís Rasquilha é o resultado de acontecimentos muito pouco planeados.

RF – Explica-nos o que é ser cool hunter.


LR - Vamos primeiro explicar o que é ser cool. É uma componente técnica, é uma profissão, e tem uma definição muito clara. Cool é tudo aquilo que é atractivo, inspirador e com potencial de crescimento. Ou seja, não estamos a falar de ideias, de gadgets, de coisas giras, de design. Estamos a falar de coisas, pessoas, comportamentos, cores, sons, locais, acontecimentos, objectos e tudo aquilo que entendamos como sendo atractivo, inspirador e com potencial de crescimento. Isso é a definição de cool que nós praticamos quase como um fundamentalismo. Ser cool hunter são as pessoas que no mundo procuram o que é cool. Ou seja, é um conjunto de pessoas que está em 2% da população mundial, e que mesmo assim já é muita gente, que tenta ser capaz de identificar nos outros, situações, acontecimentos, que possam no futuro ser tendência.

RF- Cool, é um conceito recente?

LR – O conceito cool tal como o entendemos tem 3 , 4 anos. A metodologia, ou a procura de coisas na tentativa de antecipar o futuro tem 15 anos. Nós trabalhamos com o comportamento do consumidor, com sociologia do consumo, temos de perceber como é que as pessoas se comportam e em função disso extrair para a realidade insights que sejam reveladores do que elas expressam, do seu subconsciente e depois transpor isso para as empresas como uma mais valia de negócio para criar novos produtos, novas marcas, com os actuais ou novos consumidores.

RF – Dá-me três exemplos de coisas que sejam tendência neste momento, que sejam cool.

LR – Uma que está muito na ordem do dia. A gripe A é um bom exemplo. Há um princípio na gripe A muito engraçado que é, se apanhares gripe ficas imune. E portanto quando a curas ficas resistente ao vírus. Neste momento fazem-se festas de pessoas infectadas com gripe A para que as pessoas apanhem a gripe antes do surto, do caos, da pandemia. Isto para que o tratamento que tenham seja ainda personalizado, mais cuidado. (...) E tu perguntas, o que é que isto tem de cool? Na perspectiva de ser atractivo, inspirador e com potencial de crescimento é muito interessante porque expressa nas pessoas a consciência clara dos comportamentos que têm, ou seja, ai meu Deus que tenho de fugir da gripe. Não, se calhar tenho é de apanhar a gripe A já para quando toda a gente a tiver eu já ter passado por ela. Este é talvez o extremo mais engraçado. Outro exemplo que também tem sido muito interessante na perspectiva do Facebook, Twitter, Strar Tracker, em que cada vez queres ter mais amigos, fazer crescer a tua base de amigos online, vais reduzindo a tua base de amigos offline. Tens 4 ou 5 amigos reais, e depois expões a tua vida na net. Aquilo que nós chamamos o secrecy please. Na tua vida real retrais-te um bocadinho e não mostras tudo. Isso é muito interessante para ver como marcas como a Adidas, a Footlocker têm criado séries limitadas de ténis, com design exclusivo, séries assinadas, para teres uma coisa que é só tua. Exactamente para bater neste tópico do secrecy. Outra coisa muito engraçada prende-se com a alimentação. As pessoas continuam a não ter tempo para comer, e isso proliferou muito a fast food. Hoje com as preocupações alimentares e com a obesidade, as pessoas continuam a não ter tempo para se alimentarem bem mas estão a abandonar o conceito fast food e estão à procura do good food fast. Ou seja comida relativamente rápida ou embalada, mas rápida. E em Portugal tens a Go Natural a Magnólia, tens o H3. São marcas que incorporam o espírito do good food fast. Não tenho de estar à espera, como logo ali, mas é comida mais saudável do que a típica pizza ou hambúrguer de plástico. Dei-te 3 exemplos sendo que o meu preferido é a gripe A neste momento.

RF – O que vai ser tendência brevemente?


LR – A crise mundial que todos nós vivemos, uns mais directamente do que outros, tem muitíssimas vantagens. A primeira é o regresso à família, o regresso a casa. Um back to basics. Ou seja, as pessoas porque não têm dinheiro para as férias, as viagens, os fins de semana fora, os jantares fora, há uma retracção desse tipo de comportamentos e as pessoas têm de se virar mais para dentro de casa e para a família, que tem a ver com uma série de valores mais antigos. Vai ajudar negócios como o das televisões, das consolas, da música, em que passas a ter dentro de casa aquele entretenimento que se calhar vivias fora. Querias ir para algum sítio e agora como não podes ficas em casa. Não é por acaso que o negócio de produtos que mais tem crescido em vendas no último ano são velas, preservativos, brinquedos eróticos e chás. E isto explica-se. (...) Outra, e essa continuará a ser cada vez mais expressa tem a ver com a economia da experiência. Nós estamos muito mais numa lógica de compra e decisão emocional, até porque como temos que racionalizar o nosso dinheiro, não podemos comprar tudo e portanto temos de racionalizar entre duas emoções, o que é uma dicotomia engraçada, e estamos a assistir ao facto de as pessoas quererem coisas, experiências memoráveis. Ou seja, em vez de comprarem mais um carro ou mais um relógio, querem aquele carro, aquele relógio. Podem não voltar a comprar mais nenhum na vida, mas é aquele que lhes proporciona uma experiência absolutamente inesquecível. Deixa de haver espaço para a não diferenciação. Tudo o que é igual deixa de ter espaço.

RF – Dentro da mala tens o primeiro exemplar do teu novo livro. Acabaste de chegar da editora. O que acrescenta ao mercado?

LR – O livro chama-se Publicidade e depois tem um subtítulo onde tem fundamentos, estratégia, criatividade, média e técnicas de comunicação. Está assente naquilo que é o curso no INP que eu coordeno em Publicidade. (...) De certa forma é a sebenta que ajuda os alunos a conseguirem acompanhar. Qual é a vantagem do lançamento deste livro? Ele vem trazer por um lado de uma forma muito pragmática e muito concentrada e simples, a questão de que a boa publicidade não é tabu, todos a podem fazer e não é só conseguida pelas grandes marcas. Aliás, a grande diferença que tem este livro é ser um livro de publicidade sem ter um único anúncio. (...) Não venho dizer que este é o melhor livro de publicidade do mercado, mas é a primeira vez que um livro junta a componente da estratégia com a componente criativa.

RF – Com tantos projectos como é que geres a tua vida pessoal?

LR – A vida pessoal é a grande penalizada disto tudo. Raras pessoas conhecem a minha vida pessoal. Não a mostro e faço-o deliberadamente. Gosto de proteger quem está à minha volta, até porque tenho pouco tempo para eles não os devo expor a essa falta de tempo. A minha vida pessoal é gerida com alguma dificuldade, com as pessoas que à volta se queixam pela minha ausência, sejam os amigos ou a família. Tem sido difícil de gerir, mas quem me conhece e gosta de mim já se habituou mais ou menos. Não sou claramente um modelo de vida pessoal.

RF – Qual foi a pergunta que nunca te fizeram à qual gostavas de ter respondido?

LR – É difícil …já fiz muitas entrevistas nos últimos 5 anos com alguma regularidade… olha, a pergunta se me arrependo de alguma coisa do que fiz até agora, é uma pergunta interessante. Nunca me perguntaram isso.

RF – Então cá vai, arrependes-te de alguma coisa que fizeste?

LR – Todos temos algo de que nos arrependemos. Profissionalmente faria tudo da mesma forma, não me arrependo de nada. Em relação à minha vida pessoal mudaria algumas coisas, seria claramente diferente. Mas não me arrependo de rigorosamente nada. Se voltasses atrás onde é que mudavas alguma coisa? Em termos profissionais há 10 anos atrás, e não querendo dizer as marcas, estava comprometido com uma empresa, tinha um contrato assinado e tive um segundo convite. Esta segunda empresa era uma espécie de modelo na altura, da qual eu gostava imenso. Pensei se deveria quebrar o contrato que tinha com a primeira para ir para aquela. Mas os meus valores éticos falaram mais alto e fiquei onde estava. Revelou-se uma experiência interessante mas não com a solidez e a durabilidade que eu achei que teria quando fui para lá. Se tivesse quebrado o tal contrato tenho a certeza de que hoje estaria com certeza na segunda empresa. Mas não é um arrependimento, é uma constatação de que houve ali um momento de indecisão que mudaria de certeza o que estou a fazer hoje.
entrevista completa aqui
publicado por Rita Filipe às 15:57
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