Um blogue em que os meus convidados são desafiados para uma entrevista em jeito de conversa de café
26 de Outubro de 2009

  

Encontrámo-nos na recém inaugurada Casa das Histórias Paula Rêgo, em Cascais. A cafetaria do edifício projectado pelo arquitecto Souto de Moura serviu de palco à nossa conversa. Uma entrevista em que o estilista revela detalhes da sua criatividade, num local que merece ser visitado.

 

A colecção deste Inverno foi inspirada precisamente na obra da pintora Paula Rego. Daí a minha sugestão do local. Porque de facto é um universo de que gosto particularmente e estou muito feliz por termos este projecto aqui em Cascais.

 

O estilo JAT é sóbrio, depurado, elegante, sofisticado, teatral e romântico. As minhas referências são bastante românticas, quer associadas ao período romântico, quer ao romance e às histórias de amor, aos seus personagens.

 

 

 

Rita Filipe - Quem é o José António Tenente?

José António Tenente – (risos) Profissionalmente sou um designer, que trabalha há 23 anos e que tem, sem falsas modéstias, um percurso que é particular no panorama da moda nacional, com um projecto, uma linguagem, uma identidade próprias, e que obviamente reflectem muito aquilo que sou como pessoa, os meus gostos, as minhas opções estéticas. Porque na realidade, a minha opção de projecto de autor, foi muito nessa perspectiva. Aconteceu naturalmente. Não fiz um plano estratégico quando comecei. Mas de facto este projecto reflecte muito do que sou.

 

RF – Como é que define o estilo José António Tenente?

JAT – (...)O estilo JAT é sóbrio, depurado, elegante, sofisticado, teatral e romântico. Este último, é o adjectivo mais recorrente na análise do meu trabalho. As minhas referências são bastante românticas, quer associadas ao período romântico, quer ao romance e às histórias de amor, aos seus personagens.

 

RF – O que é que o inspira a criar?

JAT – São muitas coisas. A música, o cinema, a pintura, a escultura, às vezes até uma pesquisa histórica específica. Um corte, um detalhe, são variadíssimas coisas. Já comecei uma colecção a partir de uma música, de uma banda sonora, a partir de um filme, ou de um personagem específico. A colecção deste Inverno (09/10) foi inspirada precisamente na obra da pintora Paula Rego. Daí a minha sugestão do local. Porque de facto é um universo de que gosto particularmente e estou muito feliz por termos este projecto aqui em Cascais. Foi uma visão extraordinária e uma excelente conjugação de factos para que esta casa se instalasse aqui em Cascais. É extraordinário haver este espólio em Portugal. Há uns anos que tinha a ideia de criar uma colecção baseada no universo da Paula Rego. Mas há ideias que precisam de ser amadurecidas e precisamos do momento certo para as desenvolver. Sempre associei este universo a uma colecção de Inverno. (...) É o meu olhar actual sobre esta pintura. Não é nenhuma tese de doutoramento, não pretende ser um ensaio teórico sobre… é a minha perspectiva neste momento. E nesse sentido, peguei nas imagens, que para mim são emblemáticas do período mais decorativo e figurativo das obras de Paula Rego, a partir de meados dos anos 80, e desenvolvi a colecção toda a partir daí. Como também se tratassem de quadros. Desenvolvemos uma série de vestidos inspirados nas ‘Criadas, na ‘A madrinha do novilheiro, na ‘A prova’, nas ‘Avestruzes bailarinas’…

 

RF – Já lhe aconteceu alguma vez ir na rua e pensar “eu tenho um vestido perfeito para aquela mulher”?

JAT – (...) Ultimamente acontece-me mais vezes dizer: Que disparate! (risos) Porque é que vestiu aquilo? O que é que lhe passou pela cabeça? Por outro lado também consigo fazer outra análise, que é curioso… as pessoas estarem tão libertas hoje em dia. O que às vezes é um contra-senso: por um lado há a ditadura do belo, do eternamente jovem, do corpo perfeito. Andamos o ano inteiro a fazer dieta, à procura da tal perfeição que se vê nas revistas, que são sempre corpos magros, altos mas por outro lado, as pessoas mais facilmente se atrevem a consumir a imagem. Estou a pensar, por exemplo, em miúdas com calças de cintura descida, com corpos que não são propriamente os mais indicados para o fazer. Mas ao mesmo tempo acho giro terem coragem e estarem bem. É um bom sinal dos tempos, as pessoas estarem bem com o que são.

 

RF – Dê-me 2 ou 3 exemplos de vestidos que lhe tenham dado um especial prazer em criar.

 

JAT – (...) Gostei imenso de fazer os vestidos que a Ana Moura usou nos concertos do coliseu no ano passado. Tive imensas reacções positivas ao vestido que a Bárbara Guimarães usou na Gala dos Globos de Ouro este ano. Estes são exemplos que as pessoas conhecem, mas tenho essa sensação muitas vezes com clientes anónimos. Podem não ir para o palco, mas naquele dia especial é mais ou menos a mesma coisa.

 

RF- Quem é que gostava de vestir?

JAT – Tenho tido a sorte de profissionalmente, através do meu percurso e do percurso profissional de algumas pessoas, de me cruzar com pessoas de quem gosto muito, algumas das quais até já admirava os seus trabalhos anteriormente. Isto aconteceu, por exemplo, com a Bárbara Guimarães, a Teresa Salgueiro, a Maria João, a Leonor Silveira, a Beatriz Batarda, mais recentemente a Ana Moura. Gosto mais destes encontros do que estar a pensar e a projectar quem gostaria de vestir e depois isso nunca acontecer.

 

RF – Qual foi o pedido mais extravagante que um cliente lhe fez?

JAT – As pessoas que vêm ter comigo conhecem o meu trabalho, sabem qual é a imagem da marca, identificam-se bastante com o meu trabalho. Nestes anos todos de trabalho tive 2 ou 3 casos em que eu senti que não era a pessoa certa para aquele pedido. E não era nada de extravagante. Era uma coisa normal para aquele cliente mas que para mim não fazia sentido. E quando é assim digo que ficamos todos mais felizes se o cliente encontrar a solução noutro lado, porque de facto o que pretende não tem muito a ver comigo. Não vou conseguir fazer um bom trabalho e há quem o faça melhor.

 

RF – Acha que os portugueses se vestem bem ou mal?

JAT – Isso é muito relativo de facto, mas de uma forma geral, hoje, os portugueses vestem-se muito melhor. Têm muito mais oferta, têm muito mais informação de moda, a moda democratizou-se bastante. Olhando para trás, é obvio que hoje se vestem melhor. Também é verdade que tanto em Portugal como no resto do mundo, a faixa que veste moda ‘de autor’, é sempre minoritária. Ainda assim, as pessoas estão mais atentas ao que se usa, quais são as cores, silhuetas... e isso é de facto fruto da grande oferta que hoje temos em Portugal.

 

RF – Qual é o poder que a moda tem?

JAT – A moda tem um grande poder. Às vezes é sobrestimado e outras subestimado. A moda influencia as pessoas em pequenas coisas das quais nem sempre se tem muito bem noção. Basta pensarmos que há pouco tempo dissemos isto nunca na vida vou usar, amarelo nunca, chumaços nunca, leggings nunca, e depois passados duas estações usamos. Esse é um poder muito imediato. Depois, a médio prazo, há também o poder de mudar mentalidades. Por exemplo, há 20 anos não era vulgar ver uma grávida assumir a barriga, e hoje no Verão usam top e calças com a barriga completamente de fora. Outro exemplo, são as referências femininas que o vestuário masculino hoje tem. Silhuetas muito justas para homem, usar cores como o cor-de-rosa, e não estamos só a falar de um público muito trendy, estamos até a falar em marcas muito conservadoras.

Na verdade, a moda tem vários poderes, em várias escalas.

 

 

 

entrevista completa aqui

 

 

publicado por Rita Filipe às 00:21
Mais uma excelente entrevista!
Dive a 26 de Outubro de 2009 às 20:49
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