Um blogue em que os meus convidados são desafiados para uma entrevista em jeito de conversa de café
09 de Novembro de 2009

Mário Pacheco compôs Fados tão conhecidos como “Há uma música do povo” ou “ Cavaleiro Monge”. Acompanhou vozes como a de Amália Rodrigues com a sua guitarra portuguesa. Em 2006 a Fundação Amália Rodrigues atribuiu-lhe o prémio de Melhor Compositor. Gravou dois álbuns de instrumentais. “Clube de fado: a música e a guitarra” foi eleito em 2007 pela revista britânica Songlines como um dos dez melhores do mundo na área World music. Hoje vive para o fado. O ritual repete-se todas as noites. Quando a intensidade luminosa baixa, o ruído abandona a sala, os empregados deixam de servir e ele entra com os fadistas. Silêncio que se vai cantar o fado.

 
 
Rita Filipe - Quem é o Mário Pacheco?
 
Mário Pacheco -  É um músico da especialidade fado embora abarque outras músicas. No fado, normalmente a tradição é de família. Hoje em dia já é um pouco diferente, mas a tradição era que os guitarristas fossem os filhos dos guitarristas. Não havia escolas, por consequência sou filho de um guitarrista que foi bem famoso, popularizado pela Hermínia Silva. No meio de uma brincadeira inocente ela disse uma frase que ainda hoje, passados trinta e tal anos se ouve. “Anda Pacheco”, é o meu pai, o António Pacheco. Desde pequeno, 6, 7 anos que ia para os fados com o meu pai. Ele ia trabalhar e eu ia para a farra. O meu padrinho tocava viola e fazia parelha com o meu pai que tocava guitarra portuguesa. E eu ia para os fados com a família. Mas para mim era uma brincadeira. Nunca me entusiasmei nem tinha vontade de tocar. Até que aos 14, 15 anos comecei a tocar viola nas festas da escola. Toquei viola durante 18 anos. Até que comecei a compor e a tocar guitarra portuguesa. Decidi ser solista, porque a viola no fado é um instrumento de acompanhamento. Dediquei-me arduamente à guitarra portuguesa, que é um instrumento de solo. O fado não é uma música de moda, já tem duzentos anos, e já sobreviveu a muitas coisas, achei também como propósito de vida que se esse património todo me chegou a mim, fados, instrumentais, guitarradas, deveria dar o meu contributo. Já gravei dois discos de instrumentais.
 
 
RF – Tocar guitarra portuguesa é uma profissão ou uma espécie de fado?
 
MP – As duas coisas. É obviamente uma profissão, existem os profissionais da guitarra portuguesa. Mas para quem quer mais alguma coisa, e tem sempre uma insatisfação, e as angústias da criação, angústias que passam a ser existenciais, porque queremos sempre mais qualquer coisa, depois a consciência aumenta, e se aumenta a consciência, aumenta a visão de que somos fraquinhos. Abençoados os loucos que pensam que sabem tudo! Quanto mais sabemos mais se vão abrindo caminhos. Tentamos abarcar muitas emoções, muitas vivências. Estou aqui ao lado do monumento mais antigo de Lisboa, estamos a falar do Século XI.O que é uma carga muito grande. Por consequência, tocar guitarra também é um fado, na verdadeira génese da palavra. Posso dizer que o meu fado é o fado.
 
RF – O que é para si o fado?
 
MP – Citando Amália “O Fado é um mistério”. Ninguém sabe muito bem como isto começou. Os académicos surgiram atraídos por esta magia do fado, porque o fado tem de facto algo especial, tal como os poetas que há 20 anos ficavam horrorizados se escrevessem para fado e hoje o fazem. O nosso prémio Nobel escreve para o fado também. Tentando ser mais objectivo, o fado é uma música que tanto quanto se sabe  nasceu em Alfama, nas docas, no rio. No início do século XVIII Portugal estava esvaído de capital e de capital humano. Tudo o que era gente jovem, homens jovens morreram no mar, ficaram em África, na Índia, no Brasil. Portugal era um país de mulheres, de viúvas, de prostitutas que viviam à espera que um barco viesse. Era um país de miséria, havia muita fome. Há algum tempo que digo que o fado são os blues da Europa. É uma cantiga de mágoa. Tanto quanto me informei o fado existe porque existiram os fadistas. E quem eram? Eram vagabundos que lamuriavam nas tabernas à procura de um emprego especialmente quando regressavam do mar. Estes vagabundos cantavam umas melopeias, sempre muito repetitivas, tal como existe um bocadinho no flamenco e baseava-se nisto : ai a minha vida é uma tristeza, ai a minha vida é uma miséria… E o fado está associado à tristeza.
 
RF – E a saudade?
 
MP-  A saudade é outra conversa, é como o “anda Pacheco”. Entrou no ouvido, mas não acho que seja assim tão importante para o fado. Qualquer jornalista que fala comigo vem com a história da saudade. Faz algum sentido, mas não acho que tenha tanta importância. É uma palavra difícil de explicar, é algo muito nosso, sentimos o que é a saudade mas torna-se complicado explicá-la a um estrangeiro. É uma palavra e um sentimento muito português. Porquê? Foi a nossa história que criou isso, os nossos marinheiros quando partiam, levavam e deixavam saudades. E a palavra entrou no léxico do fado. Com alguma pertinência, mas não tanta quanto lhe atribuem.
 
RF – Acompanhou com a guitarra portuguesa as grandes vozes do fado. Como é o exemplo de Amália. Tem alguma história dela que queira contar?
 
MP-  Posso dizer-lhe que a tratava por Ana Maria. Porque era o nome do personagem que ela fazia no filme “Fado: a história de uma Cantadeira”. Ela gostava muito de contar anedotas. Era extremamente negativa e extremamente alegre. Era negativa, a morte perseguia-a. E isso vê-se nas letras. Foi uma excelente letrista, excelente mesmo. Não era uma pessoa esperta, era de facto uma pessoa muito inteligente. E uma pessoa inteligente é frágil, sente as coisas de outra forma. Era muito perspicaz, muito atenta, embora parecesse que não. Este presente que Portugal teve em ter uma Amália, uma pessoa que tinha um dom, uma voz única, extraordinária. Veio do povo, gostava do povo, dos pobres… houve uma altura da minha vida em que vivi dois meses com a Amália no Brejão quando estávamos a preparar o último disco dela. Ela deu-me tudo e eu dei-lhe a esperança. Deu-me conhecimento, amizade, deu-me o privilégio de estar com ela e eu só lhe dei uma coisa que achava importante, dei-lhe a esperança. Quando toda a gente dizia que ela não cantava mais, eu disse-lhe o contrário. Não cantaria como há 40 anos atrás, mas com a voz belíssima dos seus setenta e tal anos. Nunca lhe pedi nada, não falávamos muito. Sabe que há pessoas que só de termos o privilégio de estarmos ao pé delas aprendemos muito. Nunca a adulei só por adular. Dizia-lhe as coisas seriamente. Já passaram 10 anos desde a sua morte e apercebo-me que as pessoas ainda não perceberam a grandiosidade da Amália. A grande maioria não sabe verdadeiramente o que representa Amália.
 
RF – Quem é Amália Rodrigues ?
MP – A frase não é minha é dela. Com uma imodéstia que não era normal nela dizia “não existe fado, existe Amália”. Ninguém conhece o fado, conhecem sim a Amália. O mundo conhece Amália.
 
RF – Qual é o significado do Clube de Fado para si?
 
MP – A páginas tantas da minha vida decidi que queria ter um sítio para tocar. Não gostava das outras casa de fado. Isto era um bar, soube que o dono queria vender e comprei. É meu há 15 anos. E do nada, em conjunto com os meus colaboradores, criei uma das casas de fado mais famosas em Lisboa. Faço uma selecção muito rigorosa dos fadistas que aqui tenho. Esta é uma casa baseada no respeito e na dignidade. É uma grande paixão.
 
RF – Há magia no dedilhar da guitarra portuguesa?
 
MP -  A guitarra portuguesa é um instrumento de solo, permite uma certa libertação, tem uma sonoridade própria. É um instrumento que encanta as pessoas, talvez por não ser muito conhecido. A guitarra soa a Portugal, identifica Portugal. Quem vem uma vez a Lisboa e ouve fado associa a guitarra a Portugal. Como dizia o Carlos Paredes “é o som do rio, é o ruído da cidade, Lisboa tem um silêncio diferente dos outros silêncios”. Para mim a guitarra traz-me mar, casario, ruinhas. Para mim o som da guitarra é som de Portugal. Foi muito bem sacada aos Ingleses. A guitarra era inglesa. Quando vieram para cá ajudar, ou não, contra as invasões napoleónicas, trouxeram a guitarra. Tanto quanto se sabe foi assim que este instrumento apareceu em Portugal. Costumo dizer com uma certa ironia que foi roubadinha e bem porque já que eles nos levaram o vinho do Porto e as lãs, roubámos-lhes a guitarra. Nós transformámos e melhorámos muito a guitarra, era um instrumento sem sonoridade e agora é um instrumento glorioso.

 

 

publicado por Rita Filipe às 21:44
Gostei muito desta entrevista, dá vontade de ir visitar o "Clube do Fado" e ouvir o dedilhar da guitarra portuguesa...
stiletto a 10 de Novembro de 2009 às 20:58
As usual...gorgeous and fabulous!

Your lines are like smoth fingers that play on a guitar!

Beijos
Nuno a 12 de Novembro de 2009 às 22:22
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