Um blogue em que os meus convidados são desafiados para uma entrevista em jeito de conversa de café
21 de Novembro de 2009

 Está habituada a gerir a sua vida ao minuto. É mãe, mulher, profissional de sucesso. A editora da Revista Exame acaba de lançar um livro com um título sugestivo. "O homem certo para gerir uma empresa é uma mulher" é o seu mais recente projecto.

 

 

 Acho que as mães conseguem ser melhores gestoras do tempo. 

 

Este livro não é só para presidentes e directoras gerais. Este livro é para todas as mulheres que têm o sonho de ter o seu projecto. Seja ele pessoal, profissional, por conta de outrem ou por conta própria.

 

Rita Filipe – Quem é a Rosália Amorim?

 

Rosália Amorim – É uma mulher que sabe o que quer (risos). Que tenta manter a sua simplicidade e genuinidade, mesmo nos trabalhos mais complexos como escrever um livro. É uma mulher que tenta dar alma àquilo que faz e àquilo que escreve.

 

RF – Como é que faz a gestão de uma carreira e de uma vida familiar, uma vez que é casada e tem dois filhos?

 

RA – Estes dois lados da nossa vida andam sempre par a par, tal como os carris dos comboios, sempre em paralelo, portanto são indissociáveis. Por vezes cruzam-se a aí é preciso haver alguma gestão moderada das prioridades e do tempo que se dá a cada um dos lados. As entrevistas que fiz para este livro comprovam isso mesmo. É possível uma mulher ter um cargo mais ou menos executivo, depende da hierarquia da empresa, e ter uma vida normal, com casamento e filhos. A maioria das entrevistadas é casada e teve filhos e têm uma vida familiar feliz. Acho que qualquer uma de nós que não seja feliz e não esteja realizada, não desempenha bem o seu trabalho. Depois há outra coisa interessante. Acho que as mães conseguem ser melhores gestoras do tempo. Porque têm de gerir ao minuto, ao segundo, até na minha equipa vou vendo que à medida que as pessoas vão sendo mães também se tornam melhores gestoras do tempo. Mais atentas, mais sensíveis, mais atentas ao pormenor.

 

RF – Porque é que “O homem certo para gerir uma empresa é uma mulher”?

 

RA – O título é uma forma de chamar a atenção para o assunto e para a falta de igualdade que existe entre os dois sexos no nosso país. Quando em Portugal temos dados como por exemplo, os administradores do PSI-20, em que apenas 4,8% são mulheres, em 418 administradores, acho que só esse número merece um livro. É incrível como são tão poucas as mulheres no topo das organizações. (...) Acho que a mulher pode ser o homem certo na medida em que tem determinadas características que alguns homens também têm mas que as mulheres poderão aproveitar melhor. Como por exemplo actuar em multitasking e efectuar várias tarefas ao mesmo tempo, e poder explorar melhor aquilo que o povo chama o sexto sentido, mas que ao fim ao cabo é a inteligência emocional. Essa inteligência emocional permite ter sensibilidade, ler os sinais da empresa, ler os sinais da sua equipa, ter uma visão periférica e de helicóptero, também para apreender tudo e tentar resolver as situações mais caricatas e difíceis com bom senso. (...) Porque é preciso provar em dobro. As mulheres estão muito mais expostas.

 

RF- Sentiu isso ao longo da sua carreira? Por ser mulher teve de provar em dobro?

RA – Quando entrei no jornalismo os homens mandavam sem dúvida, tanto na rádio comercial onde comecei, como na Exame. A maior parte dos editores também eram homens. As mulheres eram apenas duas, sempre vistas como as meninas bonitas que estavam ali. Um bocadinho as flores que adornam a redacção. Quando passei à segunda era da Exame com uma directora mulher, e que eu própria passei a editora, achei que havia aqui alguma evolução de mentalidades, provando o contrário daquilo que se pensa. O jornalismo económico também é feito por mulheres. E se entrarmos na redacção do Expresso também há muitas mulheres. Há 10 anos atrás as mulheres eram vistas como adorno e têm vindo a afirmar-se cada vez mais pela sua competência. Não por cotas!

 

RF – Defende que as mulheres devem chegar ao topo por mérito e nunca por cotas.

RA – Chegar ao topo por meritocracia acho que é indiscutível e isso está muito patente no meu livro. Não me imaginaria enquanto mulher, gestora, ou política quiçá, a ocupar um cargo por exemplo no parlamento por uma questão de percentagem. Isso para mim seria um atestado de menoridade, de falta de inteligência. Não consigo aceitar essa teoria das cotas. Sei que podemos levar mais tempo a lá chegar, sei que podemos ser mais questionadas. Os homens provavelmente não vão gostar de ver as mulheres a ocuparem os lugares e portanto vão fazer uma batalha duríssima. Mas aí os nossos argumentos têm de ser competência, demonstração de resultados, inteligência emocional, e trabalho, trabalho, trabalho. Trabalhar como os homens e não se resguardar no facto de ser mulher, ser sensível, ser mãe, não tenho tempo… não tenho de tentar fazer melhor nas duas valências, em casa e no trabalho, com a arma da competência, que é a nossa única arma infalível.

 

RF – Falando de estilos de liderança, no seu livro diz que mulher é Golfinho, homem é tubarão. Esmiuçando este conceito o que temos?

 

RA-  Esmiuçando  o conceito, julgo que o homem ainda actua muito como um tubarão. No sentido de ser um predador. Ele actua de forma muito mais agressiva. A mulher é muito mais comunicativa e está mais atenta à sua equipa. Tendo em conta as teorias da evolução da gestão, que dizem que a mulher tem estas competências e que cada vez mais é preciso trabalhar em equipa para ter bons resultados, julgo que o golfinho pode evidenciar-se por aí. No entanto quando analisamos estas mulheres executivas que estão no topo reparamos que algumas delas, aqui e ali ao longo da sua carreira, tiveram um quê de tubarão. Porque é quase impossível estar neste meio sem ser atingida pelo mimetismo. Quando se está no meio executivo é preciso às vezes ser dura como eles são. Ser predadora como eles são. Impor a sua presença, a sua liderança, de forma mais ou menos natural, mas com uma presença muito forte. E portanto esse mimetismo às vezes dá-lhes um quê de tubarão. Acho que estas mulheres que estão no topo hoje em dia são menos afectadas por esse mimetismo. São menos mulher-homem. Há menos aquele preconceito de que quem está no topo tem de vestir fato sempre cinzento ou preto, cabelo muito curto à homem, e não usa brincos nem pulseiras. Há menos esse efeito e a mulher assume-se mais feminina.

 

RF – Dê-me uma boa razão para o comum leitor comprar este livro.

 

RA-  Estive recentemente no programa da Fátima Lopes, na SIC, e ela dizia, e muito bem, que este livro não é só para executivas. Este livro não é só para presidentes e directoras gerais. Este livro é para todas as mulheres que têm o sonho de ter o seu projecto. Seja ele pessoal, profissional, por conta doutrem ou por conta própria. Sobretudo é um livro que tenta ter um discurso optimista e tenta mostrar que somos capazes. Mesmo quando os obstáculos são terríveis, mesmo quando é preciso quebrar os tais tectos de vidro que não nos deixam subir na organização, sejam os homens, seja o preconceito da família que não ajuda. Para as mulheres o livro pode ser uma arma, quase que um empurrão para continuarem a lutar por aquilo que pretendem. Para os homens, como dizia o Nicolau Santos, no texto de apresentação do meu livro, este pode ser um manual para nos aprenderem a conhecer melhor.

 

RF- A Rosália já escreveu um livro, já teve não um mas dois filhos. Qual é a árvore que lhe falta plantar?

 

RA- Já plantei várias. Vários pinheiros. Já tinha feito outro livro a meias com a Rosa Lobato Faria, que foi um projecto completamente diferente. Este é o meu primeiro livro a solo, e nesse sentido quero plantar outros livros a solo. Ainda não sei bem o tema, sempre à volta da economia certamente, não tem é título ainda.

RF – Se não fosse jornalista o que gostava de ser?

 

RA-  Escritora. Tive a paixão do jornalismo muito cedo, porque aos 16 anos fui convidada para fazer rubricas de cinema na rádio local. Sou do Cartaxo e comecei na rádio de lá. Convidaram-me para ao Sábado fazer rubricas sobre cinema, analisar e recomendar filmes. E gostaram imenso da minha voz. Eu fiquei fascinada com a ideia. Nunca tinha pensado em rádio. Quando comecei com as rubricas de cinema fiquei fã da comunicação, do ambiente da rádio, e do jornalismo. Ainda estava a acabar o secundário convidaram-me para a redacção. Fui fazendo um semanário e de repente comecei a chefiar a redacção. Tinha 17 anos e já estava nessas funções. E daí para a comercial em Lisboa foi só o momento de passar para a faculdade, e fui integrada na comercial que é uma escola fantástica. Portanto o jornalismo sempre esteve muito presente. E depois a minha mãe recorda sempre que quando saíamos para qualquer fim-de-semana, tinha eu 10 ou 12 anos, eu ia sempre com um bloco e com uma caneta. Acho que nunca contei isto em nenhuma entrevista. (risos) E tomava nota de tudo. Acho que a minha veia de repórter vem daí.

 

RF – A internet, a blogosfera, as redes sociais mudaram a forma como se comunica hoje em dia?

 

RA- Completamente, só o facto de eu estar aqui consigo, é um tipo de jornalismo diferente, personalizado, desta nova era do 2.0  o que mostra o quão diferente está o mundo em termos de comunicação. Acho que é impossível não estar. Se se quer comunicar, se queremos estar ligados ao mundo é impossível não estar na 2.0. Eu própria tenho dois blogues que vou alimentando consoante o tempo me permite. Um no site Exame/Expresso outro que é pessoal. As pessoas comentam muito o facto das coisas serem divulgadas online o que não acontecia até há uns anos atrás. E em termos de negócio da comunicação, que é onde estou, acho que é absolutamente complementar estar no papel e na internet. Só estando nesses dois meios, conseguimos atingir gerações diferentes com expectativas diferentes.

 

  brevemente uma foto minha com a Rosália Amorim

 

publicado por Rita Filipe às 16:35
14 de Novembro de 2009

 A minha próxima convidada é a autora do livro " O homem certo para gerir uma empresa é uma mulher". É casada, mãe de dois filhos, feliz e editora da revista Exame. Estive à conversa com uma mulher decidida que sabe o que quer. Chama-se Rosália Amorim. 

 

publicado por Rita Filipe às 16:42
09 de Novembro de 2009

Mário Pacheco compôs Fados tão conhecidos como “Há uma música do povo” ou “ Cavaleiro Monge”. Acompanhou vozes como a de Amália Rodrigues com a sua guitarra portuguesa. Em 2006 a Fundação Amália Rodrigues atribuiu-lhe o prémio de Melhor Compositor. Gravou dois álbuns de instrumentais. “Clube de fado: a música e a guitarra” foi eleito em 2007 pela revista britânica Songlines como um dos dez melhores do mundo na área World music. Hoje vive para o fado. O ritual repete-se todas as noites. Quando a intensidade luminosa baixa, o ruído abandona a sala, os empregados deixam de servir e ele entra com os fadistas. Silêncio que se vai cantar o fado.

 
 
Rita Filipe - Quem é o Mário Pacheco?
 
Mário Pacheco -  É um músico da especialidade fado embora abarque outras músicas. No fado, normalmente a tradição é de família. Hoje em dia já é um pouco diferente, mas a tradição era que os guitarristas fossem os filhos dos guitarristas. Não havia escolas, por consequência sou filho de um guitarrista que foi bem famoso, popularizado pela Hermínia Silva. No meio de uma brincadeira inocente ela disse uma frase que ainda hoje, passados trinta e tal anos se ouve. “Anda Pacheco”, é o meu pai, o António Pacheco. Desde pequeno, 6, 7 anos que ia para os fados com o meu pai. Ele ia trabalhar e eu ia para a farra. O meu padrinho tocava viola e fazia parelha com o meu pai que tocava guitarra portuguesa. E eu ia para os fados com a família. Mas para mim era uma brincadeira. Nunca me entusiasmei nem tinha vontade de tocar. Até que aos 14, 15 anos comecei a tocar viola nas festas da escola. Toquei viola durante 18 anos. Até que comecei a compor e a tocar guitarra portuguesa. Decidi ser solista, porque a viola no fado é um instrumento de acompanhamento. Dediquei-me arduamente à guitarra portuguesa, que é um instrumento de solo. O fado não é uma música de moda, já tem duzentos anos, e já sobreviveu a muitas coisas, achei também como propósito de vida que se esse património todo me chegou a mim, fados, instrumentais, guitarradas, deveria dar o meu contributo. Já gravei dois discos de instrumentais.
 
 
RF – Tocar guitarra portuguesa é uma profissão ou uma espécie de fado?
 
MP – As duas coisas. É obviamente uma profissão, existem os profissionais da guitarra portuguesa. Mas para quem quer mais alguma coisa, e tem sempre uma insatisfação, e as angústias da criação, angústias que passam a ser existenciais, porque queremos sempre mais qualquer coisa, depois a consciência aumenta, e se aumenta a consciência, aumenta a visão de que somos fraquinhos. Abençoados os loucos que pensam que sabem tudo! Quanto mais sabemos mais se vão abrindo caminhos. Tentamos abarcar muitas emoções, muitas vivências. Estou aqui ao lado do monumento mais antigo de Lisboa, estamos a falar do Século XI.O que é uma carga muito grande. Por consequência, tocar guitarra também é um fado, na verdadeira génese da palavra. Posso dizer que o meu fado é o fado.
 
RF – O que é para si o fado?
 
MP – Citando Amália “O Fado é um mistério”. Ninguém sabe muito bem como isto começou. Os académicos surgiram atraídos por esta magia do fado, porque o fado tem de facto algo especial, tal como os poetas que há 20 anos ficavam horrorizados se escrevessem para fado e hoje o fazem. O nosso prémio Nobel escreve para o fado também. Tentando ser mais objectivo, o fado é uma música que tanto quanto se sabe  nasceu em Alfama, nas docas, no rio. No início do século XVIII Portugal estava esvaído de capital e de capital humano. Tudo o que era gente jovem, homens jovens morreram no mar, ficaram em África, na Índia, no Brasil. Portugal era um país de mulheres, de viúvas, de prostitutas que viviam à espera que um barco viesse. Era um país de miséria, havia muita fome. Há algum tempo que digo que o fado são os blues da Europa. É uma cantiga de mágoa. Tanto quanto me informei o fado existe porque existiram os fadistas. E quem eram? Eram vagabundos que lamuriavam nas tabernas à procura de um emprego especialmente quando regressavam do mar. Estes vagabundos cantavam umas melopeias, sempre muito repetitivas, tal como existe um bocadinho no flamenco e baseava-se nisto : ai a minha vida é uma tristeza, ai a minha vida é uma miséria… E o fado está associado à tristeza.
 
RF – E a saudade?
 
MP-  A saudade é outra conversa, é como o “anda Pacheco”. Entrou no ouvido, mas não acho que seja assim tão importante para o fado. Qualquer jornalista que fala comigo vem com a história da saudade. Faz algum sentido, mas não acho que tenha tanta importância. É uma palavra difícil de explicar, é algo muito nosso, sentimos o que é a saudade mas torna-se complicado explicá-la a um estrangeiro. É uma palavra e um sentimento muito português. Porquê? Foi a nossa história que criou isso, os nossos marinheiros quando partiam, levavam e deixavam saudades. E a palavra entrou no léxico do fado. Com alguma pertinência, mas não tanta quanto lhe atribuem.
 
RF – Acompanhou com a guitarra portuguesa as grandes vozes do fado. Como é o exemplo de Amália. Tem alguma história dela que queira contar?
 
MP-  Posso dizer-lhe que a tratava por Ana Maria. Porque era o nome do personagem que ela fazia no filme “Fado: a história de uma Cantadeira”. Ela gostava muito de contar anedotas. Era extremamente negativa e extremamente alegre. Era negativa, a morte perseguia-a. E isso vê-se nas letras. Foi uma excelente letrista, excelente mesmo. Não era uma pessoa esperta, era de facto uma pessoa muito inteligente. E uma pessoa inteligente é frágil, sente as coisas de outra forma. Era muito perspicaz, muito atenta, embora parecesse que não. Este presente que Portugal teve em ter uma Amália, uma pessoa que tinha um dom, uma voz única, extraordinária. Veio do povo, gostava do povo, dos pobres… houve uma altura da minha vida em que vivi dois meses com a Amália no Brejão quando estávamos a preparar o último disco dela. Ela deu-me tudo e eu dei-lhe a esperança. Deu-me conhecimento, amizade, deu-me o privilégio de estar com ela e eu só lhe dei uma coisa que achava importante, dei-lhe a esperança. Quando toda a gente dizia que ela não cantava mais, eu disse-lhe o contrário. Não cantaria como há 40 anos atrás, mas com a voz belíssima dos seus setenta e tal anos. Nunca lhe pedi nada, não falávamos muito. Sabe que há pessoas que só de termos o privilégio de estarmos ao pé delas aprendemos muito. Nunca a adulei só por adular. Dizia-lhe as coisas seriamente. Já passaram 10 anos desde a sua morte e apercebo-me que as pessoas ainda não perceberam a grandiosidade da Amália. A grande maioria não sabe verdadeiramente o que representa Amália.
 
RF – Quem é Amália Rodrigues ?
MP – A frase não é minha é dela. Com uma imodéstia que não era normal nela dizia “não existe fado, existe Amália”. Ninguém conhece o fado, conhecem sim a Amália. O mundo conhece Amália.
 
RF – Qual é o significado do Clube de Fado para si?
 
MP – A páginas tantas da minha vida decidi que queria ter um sítio para tocar. Não gostava das outras casa de fado. Isto era um bar, soube que o dono queria vender e comprei. É meu há 15 anos. E do nada, em conjunto com os meus colaboradores, criei uma das casas de fado mais famosas em Lisboa. Faço uma selecção muito rigorosa dos fadistas que aqui tenho. Esta é uma casa baseada no respeito e na dignidade. É uma grande paixão.
 
RF – Há magia no dedilhar da guitarra portuguesa?
 
MP -  A guitarra portuguesa é um instrumento de solo, permite uma certa libertação, tem uma sonoridade própria. É um instrumento que encanta as pessoas, talvez por não ser muito conhecido. A guitarra soa a Portugal, identifica Portugal. Quem vem uma vez a Lisboa e ouve fado associa a guitarra a Portugal. Como dizia o Carlos Paredes “é o som do rio, é o ruído da cidade, Lisboa tem um silêncio diferente dos outros silêncios”. Para mim a guitarra traz-me mar, casario, ruinhas. Para mim o som da guitarra é som de Portugal. Foi muito bem sacada aos Ingleses. A guitarra era inglesa. Quando vieram para cá ajudar, ou não, contra as invasões napoleónicas, trouxeram a guitarra. Tanto quanto se sabe foi assim que este instrumento apareceu em Portugal. Costumo dizer com uma certa ironia que foi roubadinha e bem porque já que eles nos levaram o vinho do Porto e as lãs, roubámos-lhes a guitarra. Nós transformámos e melhorámos muito a guitarra, era um instrumento sem sonoridade e agora é um instrumento glorioso.

 

 

publicado por Rita Filipe às 21:44
28 de Outubro de 2009

O termómetro marcava 20 ºC. A noite fabulosa. Passavam cerca de vinte minutos das 21horas quando passei pela Sé. Mergulhei na alma lisboeta.Cumprimentámo-nos. Pediu-me que o deixasse tocar antes da entrevista. Como se precisasse disso para respirar. Aceitei. Convidou-me a escutar o fado. A conversa aconteceu ao longo da noite, entre o dedilhar da guitarra e a voz dos fadistas. Compôs alguns dos fados que tanto gostamos de ouvir.Trata a guitarra portuguesa por tu.  O Clube de Fado é uma das suas grandes paixões. Estive à conversa com Mário Pacheco.

 

publicado por Rita Filipe às 14:57
26 de Outubro de 2009

  

Encontrámo-nos na recém inaugurada Casa das Histórias Paula Rêgo, em Cascais. A cafetaria do edifício projectado pelo arquitecto Souto de Moura serviu de palco à nossa conversa. Uma entrevista em que o estilista revela detalhes da sua criatividade, num local que merece ser visitado.

 

A colecção deste Inverno foi inspirada precisamente na obra da pintora Paula Rego. Daí a minha sugestão do local. Porque de facto é um universo de que gosto particularmente e estou muito feliz por termos este projecto aqui em Cascais.

 

O estilo JAT é sóbrio, depurado, elegante, sofisticado, teatral e romântico. As minhas referências são bastante românticas, quer associadas ao período romântico, quer ao romance e às histórias de amor, aos seus personagens.

 

 

 

Rita Filipe - Quem é o José António Tenente?

José António Tenente – (risos) Profissionalmente sou um designer, que trabalha há 23 anos e que tem, sem falsas modéstias, um percurso que é particular no panorama da moda nacional, com um projecto, uma linguagem, uma identidade próprias, e que obviamente reflectem muito aquilo que sou como pessoa, os meus gostos, as minhas opções estéticas. Porque na realidade, a minha opção de projecto de autor, foi muito nessa perspectiva. Aconteceu naturalmente. Não fiz um plano estratégico quando comecei. Mas de facto este projecto reflecte muito do que sou.

 

RF – Como é que define o estilo José António Tenente?

JAT – (...)O estilo JAT é sóbrio, depurado, elegante, sofisticado, teatral e romântico. Este último, é o adjectivo mais recorrente na análise do meu trabalho. As minhas referências são bastante românticas, quer associadas ao período romântico, quer ao romance e às histórias de amor, aos seus personagens.

 

RF – O que é que o inspira a criar?

JAT – São muitas coisas. A música, o cinema, a pintura, a escultura, às vezes até uma pesquisa histórica específica. Um corte, um detalhe, são variadíssimas coisas. Já comecei uma colecção a partir de uma música, de uma banda sonora, a partir de um filme, ou de um personagem específico. A colecção deste Inverno (09/10) foi inspirada precisamente na obra da pintora Paula Rego. Daí a minha sugestão do local. Porque de facto é um universo de que gosto particularmente e estou muito feliz por termos este projecto aqui em Cascais. Foi uma visão extraordinária e uma excelente conjugação de factos para que esta casa se instalasse aqui em Cascais. É extraordinário haver este espólio em Portugal. Há uns anos que tinha a ideia de criar uma colecção baseada no universo da Paula Rego. Mas há ideias que precisam de ser amadurecidas e precisamos do momento certo para as desenvolver. Sempre associei este universo a uma colecção de Inverno. (...) É o meu olhar actual sobre esta pintura. Não é nenhuma tese de doutoramento, não pretende ser um ensaio teórico sobre… é a minha perspectiva neste momento. E nesse sentido, peguei nas imagens, que para mim são emblemáticas do período mais decorativo e figurativo das obras de Paula Rego, a partir de meados dos anos 80, e desenvolvi a colecção toda a partir daí. Como também se tratassem de quadros. Desenvolvemos uma série de vestidos inspirados nas ‘Criadas, na ‘A madrinha do novilheiro, na ‘A prova’, nas ‘Avestruzes bailarinas’…

 

RF – Já lhe aconteceu alguma vez ir na rua e pensar “eu tenho um vestido perfeito para aquela mulher”?

JAT – (...) Ultimamente acontece-me mais vezes dizer: Que disparate! (risos) Porque é que vestiu aquilo? O que é que lhe passou pela cabeça? Por outro lado também consigo fazer outra análise, que é curioso… as pessoas estarem tão libertas hoje em dia. O que às vezes é um contra-senso: por um lado há a ditadura do belo, do eternamente jovem, do corpo perfeito. Andamos o ano inteiro a fazer dieta, à procura da tal perfeição que se vê nas revistas, que são sempre corpos magros, altos mas por outro lado, as pessoas mais facilmente se atrevem a consumir a imagem. Estou a pensar, por exemplo, em miúdas com calças de cintura descida, com corpos que não são propriamente os mais indicados para o fazer. Mas ao mesmo tempo acho giro terem coragem e estarem bem. É um bom sinal dos tempos, as pessoas estarem bem com o que são.

 

RF – Dê-me 2 ou 3 exemplos de vestidos que lhe tenham dado um especial prazer em criar.

 

JAT – (...) Gostei imenso de fazer os vestidos que a Ana Moura usou nos concertos do coliseu no ano passado. Tive imensas reacções positivas ao vestido que a Bárbara Guimarães usou na Gala dos Globos de Ouro este ano. Estes são exemplos que as pessoas conhecem, mas tenho essa sensação muitas vezes com clientes anónimos. Podem não ir para o palco, mas naquele dia especial é mais ou menos a mesma coisa.

 

RF- Quem é que gostava de vestir?

JAT – Tenho tido a sorte de profissionalmente, através do meu percurso e do percurso profissional de algumas pessoas, de me cruzar com pessoas de quem gosto muito, algumas das quais até já admirava os seus trabalhos anteriormente. Isto aconteceu, por exemplo, com a Bárbara Guimarães, a Teresa Salgueiro, a Maria João, a Leonor Silveira, a Beatriz Batarda, mais recentemente a Ana Moura. Gosto mais destes encontros do que estar a pensar e a projectar quem gostaria de vestir e depois isso nunca acontecer.

 

RF – Qual foi o pedido mais extravagante que um cliente lhe fez?

JAT – As pessoas que vêm ter comigo conhecem o meu trabalho, sabem qual é a imagem da marca, identificam-se bastante com o meu trabalho. Nestes anos todos de trabalho tive 2 ou 3 casos em que eu senti que não era a pessoa certa para aquele pedido. E não era nada de extravagante. Era uma coisa normal para aquele cliente mas que para mim não fazia sentido. E quando é assim digo que ficamos todos mais felizes se o cliente encontrar a solução noutro lado, porque de facto o que pretende não tem muito a ver comigo. Não vou conseguir fazer um bom trabalho e há quem o faça melhor.

 

RF – Acha que os portugueses se vestem bem ou mal?

JAT – Isso é muito relativo de facto, mas de uma forma geral, hoje, os portugueses vestem-se muito melhor. Têm muito mais oferta, têm muito mais informação de moda, a moda democratizou-se bastante. Olhando para trás, é obvio que hoje se vestem melhor. Também é verdade que tanto em Portugal como no resto do mundo, a faixa que veste moda ‘de autor’, é sempre minoritária. Ainda assim, as pessoas estão mais atentas ao que se usa, quais são as cores, silhuetas... e isso é de facto fruto da grande oferta que hoje temos em Portugal.

 

RF – Qual é o poder que a moda tem?

JAT – A moda tem um grande poder. Às vezes é sobrestimado e outras subestimado. A moda influencia as pessoas em pequenas coisas das quais nem sempre se tem muito bem noção. Basta pensarmos que há pouco tempo dissemos isto nunca na vida vou usar, amarelo nunca, chumaços nunca, leggings nunca, e depois passados duas estações usamos. Esse é um poder muito imediato. Depois, a médio prazo, há também o poder de mudar mentalidades. Por exemplo, há 20 anos não era vulgar ver uma grávida assumir a barriga, e hoje no Verão usam top e calças com a barriga completamente de fora. Outro exemplo, são as referências femininas que o vestuário masculino hoje tem. Silhuetas muito justas para homem, usar cores como o cor-de-rosa, e não estamos só a falar de um público muito trendy, estamos até a falar em marcas muito conservadoras.

Na verdade, a moda tem vários poderes, em várias escalas.

 

 

 

entrevista completa aqui

 

 

publicado por Rita Filipe às 00:21
16 de Outubro de 2009

  

 

O meu próximo convidado é o estilista José António Tenente. A conversa promete muito glamour !

publicado por Rita Filipe às 11:34
10 de Outubro de 2009

 

É impossível ficar indiferente ao Salvador. A energia com que explica os seus projectos contrasta com o corpo preso a uma cadeira de rodas. Falámos de sonhos, acessibilidades e do seu mais recente desafio, o programa de televisão com o seu nome. "Salvador" estreia a 12 Outubro na RTP1.
 
 
"Tenho aprendido que na vida temos de nos focar naquilo que somos bons. E fazer das desvantagens uma vantagem."
 
 
"Acho que o programa vai ter bastante impacto, até porque aborda a temática da deficiência mas de uma maneira séria, optimista, e não lamechas. Mais do que uma lição de vida, espero que o programa ajude a mudar mentalidades. "
 

Rita Filipe – Quem é o Salvador?

Salvador Mendes Almeida – É um jovem com 27 anos, alegre, bem disposto, de bem com a vida e que aos 16 anos teve um acidente de mota. (...)

RF – Como surge a Associação Salvador?

 

 

SMA – Desde que tive o acidente e que fui retomando o contacto com a realidade, fui percebendo que não era uma situação passageira, que não era dali a um ou dois anos que ia voltar a andar, tive de me confrontar com várias situações. (...) Tenho aprendido que na vida temos de nos focar naquilo que somos bons. E fazer das desvantagens uma vantagem. Quando estava a terminar o curso, fundei a Associação Salvador porque percebi que os apoios para pessoas com deficiência e os apoios nesta área das acessibilidades são poucos ou inexistentes. (...)

RF – O Salvador recebe muitos pedidos de ajuda na associação?
SMA – Sim recebemos bastantes. Desde pedidos de cadeiras de rodas, a adaptações para uma casa, pedidos de informação para transformações de carros, desde pessoas que procuram eventos de convívio para se integrarem e para estarem com pessoas na mesma situação. Recebemos diversos pedidos aos quais tentamos responder da melhor forma para respondermos à nossa missão que é a integração plena das pessoas com mobilidade reduzida.

RF – A Associação vive do mecenato?
SMA – Exactamente. É uma associação sem fins lucrativos, vive de mecenas, de empresas que nos apoiam mas também de particulares que podem contribuir através de 2 euros por mês, através de uma mensalidade, tornando-se amigo da associação Salvador. Tornar-se amigo é não só comparticipar com uma verba mensal, anual o que a pessoa entender, mas também a nível de voluntariado. Desde levar uma pessoa paraplégica da zona onde habita a passear, desde ser nosso voluntário em eventos de convívio.

RF – A partir de Segunda-feira, 12 de Outubro, a Associação vai passar a ter com certeza uma visibilidade diferente. Estreia na RTP1 o programa Salvador. Fale-me deste desafio.

SMA – O programa tem 13 episódios. Em cada semana apresento uma história de vida de uma pessoa positiva, com coragem. Damos a conhecer pessoas que vivem com muitas dificuldades no seu dia-a-dia mas não foi por isso que deixaram de lutar e de viver. (...) Acho que o programa vai ter bastante impacto, até porque aborda a temática da deficiência mas de uma maneira séria, optimista, e não lamechas. Mais do que uma lição de vida, espero que o programa ajude a mudar mentalidades. Às vezes as pessoas não dão emprego a pessoas deficientes, ou pensam coitadinho, e põem-no na recepção a atender o telefone. (...)

RF – Portugal é um país complicado na questão das acessibilidades?
SMA – As pessoas são pouco respeitadoras. Eu quero acreditar que quando alguém estaciona num lugar reservado a uma pessoa com deficiência, ela não tem noção do que faz. Porque se conhecesse as dificuldades que as pessoas sentem no dia-a-dia, ter que tirar a cadeira, ter que a pôr, se está a chover demora mais tempo ainda, se estaciona mais longe ainda terá possivelmente de subir a um passeio… são inúmeras as barreiras.

RF – Qual foi o maior desafio da sua vida?
SMA – O mais radical foi ter mergulhado a mais de 30 metros de profundidade e depender sempre de terceiros. E eu não poder controlar nada. Quando penso nisso acho um bocado inconsciente. Se acontece alguma coisa à outra pessoa eu não consigo sair de lá. O mergulho foi um dos grandes desafios da minha vida. O mergulho é assim o mais radical, mas todos os dias temos que desafiar-nos a nós próprios. Para fazer mais daquilo que fazemos e cada vez melhor. O desafio em que estou neste momento mais empenhado, é através da associação Salvador, a construção de um Portugal mais acessível.

RF- É esse o seu maior sonho Salvador?
SMA – Não é o maior, tenho outros sonhos como casar e ter filhos, voltar a andar, mas são coisas que não acontecem de hoje para amanhã. São projectos a longo prazo. A construção de um Portugal mais acessível também é uma coisa faseada, mas enquanto profissional desta área de acção social, onde a associação faz o seu trabalho, é onde me sinto mais realizado.


RF – Com todas as dificuldades que enfrenta diariamente, onde é que o Salvador encontra a sua força?

SMA – Faço questão de me rodear de pessoas com energia positiva. Acho que às vezes temos um conceito errado de felicidade. A felicidade não consiste apenas em momentos bons. A felicidade duradoura é um processo contínuo.

 
 



 

 


entrevista completa aqui

 


 
 
publicado por Rita Filipe às 16:54
06 de Outubro de 2009





O meu próximo convidado é um exemplo de vida. Salvador Mendes de Almeida prepara-se para mais um desafio. No seu novo programa torna os sonhos de pessoas com mobilidade reduzida em realidade. "Salvador" faz parte de nova grelha da RTP1 a partir do próximo dia 12 de Outubro.
publicado por Rita Filipe às 13:37
03 de Outubro de 2009


"Não é por acaso que o negócio de produtos que mais tem crescido em vendas no último ano são velas, preservativos, brinquedos eróticos e chás. "

O meu entrevistado chegou com um look casual. Quase casual... Nos pés trazia uns ténis cor-de-laranja a contrastar com o blazer preto. Tentou de tudo para sabotar a minha entrevista. Brincou com o gravador, respondeu a emails através do iPhone, olhou para os pombos. Aquilo que agora publico é o resultado de uma tentativa séria de fazer uma entrevista ao nosso cool hunter de serviço.
O arranque foi conturbado. O Luís não parava de testar o gravador. Consequentemente eu não parava de rir.


Rita Filipe - Quem é o Luís Rasquilha?

Luís Rasquilha – O Luís Rasquilha é um bocadinho disto, de espontaneidade, de diversão. E que tenta por sempre uma componente de diversão em tudo o que faz. Tenho 34 anos, e como dizem as minhas sobrinhas “já tem idade para ter juízo”, e divido-me entre as aulas que dou, a empresa onde estou mais focado na componente das tendências como core de negócio. (...) O Luís Rasquilha é o resultado de acontecimentos muito pouco planeados.

RF – Explica-nos o que é ser cool hunter.


LR - Vamos primeiro explicar o que é ser cool. É uma componente técnica, é uma profissão, e tem uma definição muito clara. Cool é tudo aquilo que é atractivo, inspirador e com potencial de crescimento. Ou seja, não estamos a falar de ideias, de gadgets, de coisas giras, de design. Estamos a falar de coisas, pessoas, comportamentos, cores, sons, locais, acontecimentos, objectos e tudo aquilo que entendamos como sendo atractivo, inspirador e com potencial de crescimento. Isso é a definição de cool que nós praticamos quase como um fundamentalismo. Ser cool hunter são as pessoas que no mundo procuram o que é cool. Ou seja, é um conjunto de pessoas que está em 2% da população mundial, e que mesmo assim já é muita gente, que tenta ser capaz de identificar nos outros, situações, acontecimentos, que possam no futuro ser tendência.

RF- Cool, é um conceito recente?

LR – O conceito cool tal como o entendemos tem 3 , 4 anos. A metodologia, ou a procura de coisas na tentativa de antecipar o futuro tem 15 anos. Nós trabalhamos com o comportamento do consumidor, com sociologia do consumo, temos de perceber como é que as pessoas se comportam e em função disso extrair para a realidade insights que sejam reveladores do que elas expressam, do seu subconsciente e depois transpor isso para as empresas como uma mais valia de negócio para criar novos produtos, novas marcas, com os actuais ou novos consumidores.

RF – Dá-me três exemplos de coisas que sejam tendência neste momento, que sejam cool.

LR – Uma que está muito na ordem do dia. A gripe A é um bom exemplo. Há um princípio na gripe A muito engraçado que é, se apanhares gripe ficas imune. E portanto quando a curas ficas resistente ao vírus. Neste momento fazem-se festas de pessoas infectadas com gripe A para que as pessoas apanhem a gripe antes do surto, do caos, da pandemia. Isto para que o tratamento que tenham seja ainda personalizado, mais cuidado. (...) E tu perguntas, o que é que isto tem de cool? Na perspectiva de ser atractivo, inspirador e com potencial de crescimento é muito interessante porque expressa nas pessoas a consciência clara dos comportamentos que têm, ou seja, ai meu Deus que tenho de fugir da gripe. Não, se calhar tenho é de apanhar a gripe A já para quando toda a gente a tiver eu já ter passado por ela. Este é talvez o extremo mais engraçado. Outro exemplo que também tem sido muito interessante na perspectiva do Facebook, Twitter, Strar Tracker, em que cada vez queres ter mais amigos, fazer crescer a tua base de amigos online, vais reduzindo a tua base de amigos offline. Tens 4 ou 5 amigos reais, e depois expões a tua vida na net. Aquilo que nós chamamos o secrecy please. Na tua vida real retrais-te um bocadinho e não mostras tudo. Isso é muito interessante para ver como marcas como a Adidas, a Footlocker têm criado séries limitadas de ténis, com design exclusivo, séries assinadas, para teres uma coisa que é só tua. Exactamente para bater neste tópico do secrecy. Outra coisa muito engraçada prende-se com a alimentação. As pessoas continuam a não ter tempo para comer, e isso proliferou muito a fast food. Hoje com as preocupações alimentares e com a obesidade, as pessoas continuam a não ter tempo para se alimentarem bem mas estão a abandonar o conceito fast food e estão à procura do good food fast. Ou seja comida relativamente rápida ou embalada, mas rápida. E em Portugal tens a Go Natural a Magnólia, tens o H3. São marcas que incorporam o espírito do good food fast. Não tenho de estar à espera, como logo ali, mas é comida mais saudável do que a típica pizza ou hambúrguer de plástico. Dei-te 3 exemplos sendo que o meu preferido é a gripe A neste momento.

RF – O que vai ser tendência brevemente?


LR – A crise mundial que todos nós vivemos, uns mais directamente do que outros, tem muitíssimas vantagens. A primeira é o regresso à família, o regresso a casa. Um back to basics. Ou seja, as pessoas porque não têm dinheiro para as férias, as viagens, os fins de semana fora, os jantares fora, há uma retracção desse tipo de comportamentos e as pessoas têm de se virar mais para dentro de casa e para a família, que tem a ver com uma série de valores mais antigos. Vai ajudar negócios como o das televisões, das consolas, da música, em que passas a ter dentro de casa aquele entretenimento que se calhar vivias fora. Querias ir para algum sítio e agora como não podes ficas em casa. Não é por acaso que o negócio de produtos que mais tem crescido em vendas no último ano são velas, preservativos, brinquedos eróticos e chás. E isto explica-se. (...) Outra, e essa continuará a ser cada vez mais expressa tem a ver com a economia da experiência. Nós estamos muito mais numa lógica de compra e decisão emocional, até porque como temos que racionalizar o nosso dinheiro, não podemos comprar tudo e portanto temos de racionalizar entre duas emoções, o que é uma dicotomia engraçada, e estamos a assistir ao facto de as pessoas quererem coisas, experiências memoráveis. Ou seja, em vez de comprarem mais um carro ou mais um relógio, querem aquele carro, aquele relógio. Podem não voltar a comprar mais nenhum na vida, mas é aquele que lhes proporciona uma experiência absolutamente inesquecível. Deixa de haver espaço para a não diferenciação. Tudo o que é igual deixa de ter espaço.

RF – Dentro da mala tens o primeiro exemplar do teu novo livro. Acabaste de chegar da editora. O que acrescenta ao mercado?

LR – O livro chama-se Publicidade e depois tem um subtítulo onde tem fundamentos, estratégia, criatividade, média e técnicas de comunicação. Está assente naquilo que é o curso no INP que eu coordeno em Publicidade. (...) De certa forma é a sebenta que ajuda os alunos a conseguirem acompanhar. Qual é a vantagem do lançamento deste livro? Ele vem trazer por um lado de uma forma muito pragmática e muito concentrada e simples, a questão de que a boa publicidade não é tabu, todos a podem fazer e não é só conseguida pelas grandes marcas. Aliás, a grande diferença que tem este livro é ser um livro de publicidade sem ter um único anúncio. (...) Não venho dizer que este é o melhor livro de publicidade do mercado, mas é a primeira vez que um livro junta a componente da estratégia com a componente criativa.

RF – Com tantos projectos como é que geres a tua vida pessoal?

LR – A vida pessoal é a grande penalizada disto tudo. Raras pessoas conhecem a minha vida pessoal. Não a mostro e faço-o deliberadamente. Gosto de proteger quem está à minha volta, até porque tenho pouco tempo para eles não os devo expor a essa falta de tempo. A minha vida pessoal é gerida com alguma dificuldade, com as pessoas que à volta se queixam pela minha ausência, sejam os amigos ou a família. Tem sido difícil de gerir, mas quem me conhece e gosta de mim já se habituou mais ou menos. Não sou claramente um modelo de vida pessoal.

RF – Qual foi a pergunta que nunca te fizeram à qual gostavas de ter respondido?

LR – É difícil …já fiz muitas entrevistas nos últimos 5 anos com alguma regularidade… olha, a pergunta se me arrependo de alguma coisa do que fiz até agora, é uma pergunta interessante. Nunca me perguntaram isso.

RF – Então cá vai, arrependes-te de alguma coisa que fizeste?

LR – Todos temos algo de que nos arrependemos. Profissionalmente faria tudo da mesma forma, não me arrependo de nada. Em relação à minha vida pessoal mudaria algumas coisas, seria claramente diferente. Mas não me arrependo de rigorosamente nada. Se voltasses atrás onde é que mudavas alguma coisa? Em termos profissionais há 10 anos atrás, e não querendo dizer as marcas, estava comprometido com uma empresa, tinha um contrato assinado e tive um segundo convite. Esta segunda empresa era uma espécie de modelo na altura, da qual eu gostava imenso. Pensei se deveria quebrar o contrato que tinha com a primeira para ir para aquela. Mas os meus valores éticos falaram mais alto e fiquei onde estava. Revelou-se uma experiência interessante mas não com a solidez e a durabilidade que eu achei que teria quando fui para lá. Se tivesse quebrado o tal contrato tenho a certeza de que hoje estaria com certeza na segunda empresa. Mas não é um arrependimento, é uma constatação de que houve ali um momento de indecisão que mudaria de certeza o que estou a fazer hoje.
entrevista completa aqui
publicado por Rita Filipe às 15:57
27 de Setembro de 2009


O que é um caçador de tendências?
O que é ser cool?
No dia em que publicou mais um livro, Luis Rasquilha , professor no INP e Managing Partner/Senior Vice President da AYR Consulting , respondeu-me a estas e outras questões.
publicado por Rita Filipe às 11:15
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